quarta-feira, 10 de junho de 2009

Maria Auxiliadora de Oxóssi

Toca a campainha. Homem ansioso atende:

Homem -Axé, Xangô! Bem-vinda a minha casa! (o homem se abaixa e beija a mão da mulher).
Mulher (diz meio sem graça)-Boa-tar... Tarde.
Homem -Olha, você está atrasada.
Mulher -O sinhô me disculpe. É que o ônibus demorou a passar e ond...
Homem - Isso é um sinal, não é?
Mulher (silêncio) -si-nal?
Homem -É. Sinal. Sabe quando a vida envia sinais pra gente? Vai ver eu devia desistir de fazer isso...
Mulher (meio sem entender) -Ah-rãm...
Homem -NÃO! Não. Eu vou fazer!! Não tenho que ter vergonha disso, não é? É normal.
Mulher -Pois é...
Homem -Então olha só, é a primeira vez que eu faço isso. Queria pedir uma certa discrição da parte da senhora... Eu sou um homem da alta sociedade, e pega mal se todo mundo ficar sabendo o que a senhora veio fazer aqui.
Mulher -Mas o sinhô jura?
Homem -Juro. As pessoas têm preconceito com esse tipo de coisa.
Mulher -É mermo? Engraçado. É só uma questão de limpeza.
Homem -Eu também acho!! (e segura na mão da mulher, que se assusta com o gesto)
Mulher -Bom, sinhô... Se o sinhô me der licença, eu vô começar a fazê o meu serviço.
Homem -Claro! Para isso a senhora está aqui. Eu tô inclusive me perguntando o que diabos são essas coisas todas que a senhora trouxe aí... (aponta para os baldes da mulher).
Mulher –Bom, isso aqui? Isso aqui é pra fazê a limpeza, né?
Homem -Ah, sim... Claro! Ah! Antes que eu me esqueça, a galinha preta ta na cozinha, viu?
Mulher -Hein?
Homem -A galinha preta. Fiquei bastante curioso... O que a senhora vai fazer com ela?
Mulher -Óia, dotôr... Se o sinhô quisé, eu posso cozinhar ela pro sinhô.
Homem -Cozinhar? A galinha preta??
Mulher –É, uai. Tem gente que come, tem gente que cria...
Homem -Galinha preta?
Mulher -Ochê, dotôr... a galinha só é preta por fora. Por dentro é igual às otra.
Homem -Ah, sim. E depois de cozinhar?
Mulher -Uai. Dispois o sinhô come.
Homem (assustado) -Eu como?!!
Mulher -É. O que sobrar é só guardar.
Homem (todo animado) -Ah! Já sei! Eu guardo atrás da porta! Não! Na quina do banheiro pro quarto não é?
Mulher (começando a ficar assustada) -Óia, dotôr. Eu não sei como o sinhô anda fazenô as coisa aqui na casa do sinhô... Mas as pessoas geralmente guardam na geladeira.
Homem (em estado de choque) -Na ge-la-dei-ra?
Mulher -É, ué. Naqueles tupperware, sabe? Aqueles recipiente. Onde se guarda comida. Que é pra não ficar tudo espalhado. Tu acha isso naquelas loja de um e noventa e nove.
Homem -Bom... Se você ta falando... E me diz, eu como a galinha com o que?
Quando a mulher vai começar a responder, ele interrompe.
Homem -Aaah! Não responde! Já sei! Eu como com pipoca! Não, é?
Mulher (com uma certa cara de nojinho) -É, er... bom, o sinhô é quem sabe... Eu prifiro com arroz e feijão...
Homem -Ahn.
(Mulher se agacha, pega os baldes, e começa a limpar a sala, achando o homem a criatura mais estranha do mundo. O homem se senta numa poltrona e fica observando.)
A mulher começa a ficar desconfortável, olha pra ele e dá um sorriso sem graça. Ele retribui.

Mulher -É, er... O sinhô vai ficar olhanô eu trabalhar?
Homem (desesperado) –Ai! Não pode? Eu sabia que tinha que ter pesquisado mais! E agora? Estraguei tudo? A senhora vai ter que voltar outro dia??
Mulher -Não, sinh...
Homem -Aaah! Eu sabia que a senhora ia ter que voltar outro dia!
Mulher -Não sinhô, tá tudo bem... (tentando acalmar o homem).
Homem –Bom, me diz... Eu não tinha que estar de roupa branca?
Mulher -Bom, dotôr. Branco mancha muito, né?
Homem -Entendi...
Fica um silêncio desconfortável no ambiente. A mulher está limpando, e o homem está olhando. Volta e meia, eles se olham e trocam cumprimentos com a cabeça.

Mulher (se levantando) -O sinhô me dá licença pra eu limpar essa poltrona?
Homem -Ué? E tem que limpar os móveis?
Mulher -Tem sim, sinhô. Mas você levanta, por favor, que eu tenho que começar pelo encosto.
Homem -e tem encosto na minha poltrona!??
(A mulher olha pra mobília contrariada.)
Mulher -O senhor tá brincando? É claro que tem encosto.
(Homem sai de perto da poltrona rapidamente)
Homem -A senhora me perdoa, eu acho que não sou muito sensitivo.
(A mulher começa a pegar algo para limpar)
Homem -Você usa sal grosso pra limpar o encosto?
Mulher -Sal grosso? Claro que não! Uso Veja.
Homem -Veja?? Veja limpa encosto????
Mulher -Lógico, homem, limpa e ainda deixa com cheirinho de lavanda.
(Homem fica assustado. E de pé resolve perguntar).
Homem -Bom, o que eu tenho que fazer agora? Meditar? Tomar banho de sal grosso?
Mulher – Óia, o sinhô faça o que o sinhô quisé, viu? Pode ficar a vontade. Se eu precisar de arguma coisa, eu procuro o sinhô.
Homem (meio ressentido) -Hmm. Tudo bem.
(Mulher começa a cantarolar a música da Escrava Isaura e volta a fazer a limpeza, mas logo é interrompida).
Homem -Ah! Antes que eu me esqueça. A vela branca e a farofa pronta da yorke estão na cozinha.
Mulher -A vela o que?
Homem -branca.
Mulher -branca?
Homem -... e a farofa, está tudo na cozinha. A galinha preta também.
Mulher (desconfiada) –Entendi. Então o sinhô não se incomoda, d’eu dar uma olhada na cozinha, né?
Homem -De jeito nenhum. Ela fica ali ó. (e aponta para fora da coxia).
Mulher sai. E ouve-se um berro.
Mulher volta correndo desesperada.
Mulher -Ôôôô, dotôr!!!! Mas a galinha tá viva!! Pelaamordavirgemsanta! O sinhô é doido! Não é possível!
Homem tenta falar com a mulher, mas ela começa a ter um ataque, recolhendo as coisas.
Mulher -Óia, só. O sinhô me dê licença, viu? Não! Não chega perto de mim não! Sai pra lá! Eu to aqui pra trabalhá! Fazer meu serviço. Eu tenho família pra criar. Eu vou-me embora dessa casa! Onde já se viu! Galinha com pipoca, meu sinhô?? Guardar galinha atrás de porta? O senhor tem pobrema! Devia procurar tratamento. Dá licença, viu? (e saí).

Homem continua no palco, meio sem entender. Toca o interfone.
Homem -Pois não? (pausa) Uma senhora aí embaixo? (pausa) Chamada Mãe de Oxóssi? Tá dizendo que eu to esperando por ela? Entendi. O senhor me faça um favor, senhor Sidnei? O senhor avise a ela, que ela está muito atrasada. E que agora eu não posso deixar ela subir, que tá quase na hora da faxineira chegar. (Bate o interfone).
Homem -Eu hein! Essa gente louca! (e sai).

B.O

7 comentários:

Pedro disse...

LINDA, GOSTOSA, ENGRAÇADA, SABE-TUDO!

Pedro disse...

(BÊBADO)

Nanda disse...

aimmmmmmmmmmmmm...que maneiro, que maneiro que maneiro...
BJ.saudades manhê!

Ana Ullmann disse...

Isso é muito bom. Sendo encenado pela Luana, fazendo ambos personagens, dirigindo num engarrafamento megalomaníaco no centro do Rio de Janeiro é melhor ainda.

Andrè Dale disse...

hehehehehe

Bru Brig. disse...

Tu pediu permissão p escrever isso????
Olha a galinha, hein...

Anônimo disse...

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